Não, não estamos a falar dessa dor de cotovelo… (a inveja), mas sim daquela dor provocada pelo “cotovelo do tenista” ou, no outro extremo, pelo “cotovelo do golfista”, mas que também pode surgir nos pintores, condutores, cozinheiros e, mais recentemente, nos praticantes de padel

Se já lhe aconteceu bater com o cotovelo numa superfície dura sabe que a consequência foi uma dor bastante forte, tão só porque atingiu a articulação onde se reúnem vários ossos (úmero, rádio e cúbito), mas também os necessários músculos, tendões, ligamentos e cápsula que, juntos, estabilizam e permitem mobilidade da articulação; a que se junta uma pequena bolsa (bursa), que protege dos vários impactos. Quando tudo corre bem, nem damos conta das capacidades desta articulação que nos permite movimentos de extensão e flexão do braço, mas também de rotação (pronação e supinação). É quando surge a inflamação dos tendões ou da bursa, que percebemos o que é a verdadeira dor de cotovelo.

A prática de atividade desportiva pode ser a causa desta dor de cotovelo, mas nem sempre, porque existem profissões que, pela repetição de determinados gestos e posições, também acabam por comprometer esta articulação. O uso abusivo do rato do computador é um dos casos transversal a um número significativo de utilizadores e os efeitos surgem apenas pela sistemática repetição de movimentos comuns, mas que acabam por solicitar sempre os mesmos tendões.

Pintores, carpinteiros e cozinheiros, mas também os motoristas que têm o hábito de conduzirem com o braço encostado na janela, são profissões e/ou atividades que podem criar as condições “ideais” que desencadeiam uma inflamação tendinosa ou uma bursite. A função da articulação fica comprometida e o simples cumprimento de mão pode causar dor, tal como rodar a maçaneta de uma porta ou tentar utilizar o rato do computador. Os movimentos ficam limitados e, nalguns casos, há rigidez da articulação.

No desporto são várias as modalidades que podem afetar o cotovelo, são exemplos comuns e elucidativos desta patologia que, pela sua frequência, foram denominados pelo próprio desporto que as provoca: “cotovelo de tenista” (epicondilite externa/lateral) e “cotovelo de golfista” (epicondilite interna/ medial ou epitrocleite). A dor é em tudo igual, bem como a designação: tendinite, sendo apenas o tipo de movimento que a provoca que altera a sua localização. Em ambos os casos, a dor é provocada pelo mecanismo de repetição em que um ou mais tendões envolvidos são super-solicitados, resultando numa inflamação, que frequentemente ocorre de forma lenta.

O processo inflamatório começa sempre com uma sobrecarga de movimentos ou uso excessivo da articulação, seja no ténis, no golfe, no padel, no basquetebol, no voleibol, na musculação ou na ginástica. De um modo geral, é assim que começam todas as tendinites no cotovelo, podendo também resultar de um traumatismo direto (menos frequentes). A existência de uma tendinite, em simultâneo com uma infeção simples (ex. cárie num dente, infeção urinária), pode potenciar a inflamação do tendão.

Sempre que existe dor, a primeira sugestão passa por evitar o esforço/movimento que provoca essa dor, recomenda-se por isso repouso. Por norma, em situação de inflamação do tendão, a dor pode não só existir em movimento, como também em repouso, agravada normalmente pelo movimento que solicita o tendão afetado.

A par do descanso ou repouso da articulação é ainda sugerida a aplicação de gelo e, não raras vezes, a toma de terapêutica anti-inflamatória. Se iniciar tratamento de forma adequada e numa fase inicial, o prognóstico é bom e na maioria dos casos há uma recuperação em semanas.

Este tipo de patologia “epicondilopatias/tendinites do cotovelo” deve ser avaliada pelo médico de família e no caso de manutenção das queixas deve ser solicitada avaliação por um médico especialista para que, apoiado nos necessários exames de diagnóstico possa avaliar da necessidade de outros procedimentos, nomeadamente infiltrações locais ou tratamento cirúrgico.

Conselhos/sugestões:

Se faz parte da população alvo para esta patologia:

-Faça alongamentos diários, ao nível dos músculos do antebraço

-Se iniciar queixas, tente usar o “braço” contra-lateral para aliviar as solicitações no membro afetado

-Recorra rapidamente ao seu médico assistente para iniciar tratamento médico (anti-inflamatórios, analgésicos, crioterapia, fisioterapia, uso de ortótese…)

-Se a sintomatologia persistir deve recorrer a um médico ortopedista e ponderar a realização de exames complementares de diagnóstico.

Ana Inês
(Médica, Ortopedista)

 

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