Um ouvido português nunca será igual a um ouvido que sempre ouviu falar alemão. É o ambiente sonoro que vai moldar o desenvolvimento e a configuração do ouvido interno, através de um processo de maturação que acontece nos primeiros 5 anos de vida

São necessários 9 meses de gestação no ventre materno para que uma célula, resultante de dois gâmetas (pai e mãe), se multiplique e diferencie num organismo capaz de vida autónoma. No entanto, ainda vão ser necessários mais 4 ou 5 anos de maturação neurológica para que a criança se adapte ao meio físico, biológico e social em que nasceu.

Se, por um lado, esta fragilidade torna o recém-nascido humano numa criatura totalmente dependente nos primeiros anos de vida, por outro lado, permite que a formatação de todos os instrumentos fisiológicos de relação com o ambiente exterior – órgãos sensoriais e neuronais – seja influenciada pelos estímulos produzidos pelo meio.

É hoje consensual que a definição de redes neuronais, de circuitos de funcionamento dos fluxos do pensamento, das capacidades cognitivas e características comportamentais do indivíduo são decisivamente determinadas pelas suas experiências e vivências na mais tenra idade e determinantes do carácter, da personalidade, da emotividade, e dos sentimentos afetivos, emotivos e estéticos de cada um. Mas, para além dos níveis superiores de codificação e interpretação dos estímulos externos, fornecidos pelos órgãos dos sentidos, também os próprios órgãos dos sentidos, no seu processo de maturação, são formatados de acordo com as características dos estímulos produzidos pelo ambiente em que a criança se desenvolve.

São as características específicas dos sons de uma língua (fonemas) que determinam a configuração do próprio órgão que os vai traduzir para o código biológico (ouvido interno). Assim, numa língua em que prevalecem sons graves, noutra os sons nasalados, ou ainda noutra em que é preciso discriminar entre imensos sons agudos, há uma diferente estimulação do ouvido interno.

Esta estimulação vai influenciar o próprio desenvolvimento morfológico e funcional do órgão sensorial (a cóclea), que se vai adequar à linguagem em que socialmente está inserida a criança. Um ouvido desenvolvido num ambiente sonoro cuja linguagem falada é codificada em português, alemão ou chinês terá características específicas, de acordo com o processamento do sinal acústico que se faz em diferentes zonas da cóclea.

Até aos 5 anos, as estruturas fisiológicas estão em maturação. Após aquela idade, deixa de haver possibilidade de modificar os órgãos de codificação dos sons e, se estiver em contacto com uma nova língua, o individuo terá de mobilizar as zonas de aprendizagem cerebral, pois as zonas de codificação dos sons (sensorial) já estão formatadas.

Este conhecimento implica muitas reflexões e opções de orientação terapêutica nas situações de deficit auditivo na criança. A primeira medida nesta área é o diagnóstico precoce. Existe hoje uma preocupação de saúde pública para que todas as crianças sejam controladas ainda na Maternidade, através do rastreio auditivo universal. A precocidade de introdução do estímulo sonoro no órgão sensorial da criança, permite a inversão da atrofia irreversível, no caso da surdez profunda.

Mas não chega introduzir sons na cóclea! É necessário que estes tenham as características apropriadas para que o desenvolvimento daquela cóclea se faça de modo a perceber a língua dos pais. Daí a importância da adequada programação dos codificadores do som ambiente (prótese auditiva ou implante coclear), que se colocam no ouvido da criança surda profunda.

Os aparelhos, que se usam para recuperar a capacidade auditiva na criança surda profunda que nunca ouviu (cerca de 1 em cada 1.000 recém-nascidos), precisam de ser afinados às características físicas específicas (impedâncias e condutibilidade) dos tecidos orgânicos do ouvido da criança e, por outro lado, às características acústicas da fala (filtros de bandas de frequência, estratégias de codificação do sinal sonoro) da comunidade onde vai ser inserido.

Um “bom aparelho” não é, portanto, sinónimo de uma boa reabilitação: a terapia só deve começar depois de uma adequada programação da prótese.

Luís Filipe Silva
(Médico, Otorrinolaringologista)

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