O autismo e a esquizofrenia, apesar de doenças psiquiátricas distintas, partilham genes e manifestações clínicas, levando muitas vezes a erros de diagnóstico. O futuro passa pela disponibilidade de exames de imagiologia funcional e biomarcadores, que irão ajudar a distinguir estas duas patologias    

A esquizofrenia é uma doença psiquiátrica caracterizada por um funcionamento social anormal e dificuldade na compreensão da realidade. Os principais sintomas incluem delírios, alucinações, discurso desorganizado e catatonia, sendo estes designados de sintomas positivos; mas o quadro clínico também pode incluir sintomas negativos, como a anedonia (falta de prazer na realização de tarefas), avolição (falta de vontade) e apatia.

Esta doença atinge cerca de 1% da população mundial, podendo ter início súbito, mais frequentemente no adulto jovem; ou, de forma gradual, durante a infância. A esquizofrenia é uma doença de causa multifatorial: genética e ambiental (ex.: consumo de canábis durante a adolescência, algumas infeções, idade paterna avançada e má nutrição durante a gravidez). O diagnóstico é baseado na observação clínica e são as escalas de avaliação neuropsicológica que o validam. O tratamento inclui intervenção psicofarmacológica, maioritariamente com antipsicóticos, e psicoterapêutica que inclui o treino quanto às competências sociais e a reabilitação cognitiva.

O autismo, incluído nas perturbações do espectro do autismo, é uma doença do neurodesenvolvimento, caracterizada por dificuldades na interação social e comunicação, em que o doente manifesta interesses restritos e comportamento repetitivo.

Em dados de 2017, atingia nos países desenvolvidos cerca de 1,5% das crianças. O autismo é uma doença multifatorial, onde fatores genéticos e ambientais (ex.: exposição fetal a infeções como a rubéola, ou a fármacos como o Valproato) desempenham um papel ainda em investigação. Mais uma vez, o diagnóstico é baseado na observação clínica, havendo escalas de avaliação neuropsicológica que o validam. Na idade adulta o tratamento abrange psicoterapia e psicofármacos, sendo estes utilizados para o controlo das alterações emocionais ou de comportamento.

O interesse da intervenção precoce em psiquiatria passa pelo diagnóstico célere e pela terapêutica minimalista em jovens com patologia psiquiátrica. A esquizofrenia e o autismo podem colocar ao médico psiquiatra um desafio de diagnóstico importante. Neste sentido, admite-se que um número significativo de adultos pode ter uma perturbação do espectro do autismo não diagnosticada, como se exemplifica no caso clínico em anexo.

Num estudo recente, publicado em Fevereiro de 2018 na revista NeuroImage, investigadores americanos utilizam a neuro imagiologia funcional e, em particular, a conectividade cerebral (atualmente aplicada apenas em investigação clínica) para distinguir estas duas patologias.

O interesse em diferenciar estas duas patologias reside no facto de o prognóstico e a terapêutica serem distintos. As perturbações do espetro do autismo apresentam grande sensibilidade aos efeitos secundários dos antipsicóticos, beneficiando de uma menor dose destes psicofármacos; e, para além disso, a intervenção psicoterapêutica está indicada para a melhoria das capacidades sociais neste grupo de doentes.

 

Caso clínico:

Jovem de 27 anos, vem à consulta por sintomatologia depressiva e com o diagnóstico de esquizofrenia. Apesar de licenciado, não consegue manter o emprego, mantendo-se isolado, com poucos contactos sociais. Durante a entrevista não mantém o contacto visual, enquanto responde às questões, mas utiliza um vocabulário rico. Segundo os pais, com quem vive, nunca teve amigos ou namorada, preferindo atividades solitárias. Com o diagnóstico de esquizofrenia desde os 20 anos, apura-se que o diagnóstico se baseava na sintomatologia psicótica existente (ideais delirantes persecutórias), em associação com sintomatologia negativa. Numa avaliação cuidadosa, constata-se que a sintomatologia psicótica positiva remitiu; e relativamente os anos de escolaridade, os pais referem que apesar de parecer alheado, mantinha-se motivado para a interação social, contudo mantinha intervenções sociais desapropriadas, parecendo “naive” ou desajeitado; o que confirma o diagnóstico de perturbação do espectro do autismo.

 

 

Sofia Morais

(Médica Psiquiatra)

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