Ter um resultado normal na citologia do colo do útero garante a 100% que não existe uma lesão capaz de evoluir para cancro ou, até, um cancro inicial? Não! Infelizmente existem situações em que as citologias do colo do útero são negativas para cancro, mas a doença pode existir ou manifestar-se dentro de meses ou curtos anos

Praticamente todos os cancros do colo do útero são causados pela infeção por um vírus, o HPV de subtipo oncogénico ou de alto-risco. Esta é uma infeção sexualmente transmissível, geralmente adquirida nos primeiros anos após o início da atividade sexual e existem fatores de risco que afetam particularmente algumas mulheres, tais como o início precoce da atividade sexual, o maior número de parceiros sexuais ou parceiros sexuais com múltiplos/as parceiros/as sexuais e, fundamentalmente, a não utilização de métodos de barreira como o preservativo.

Outros fatores contribuem para a reinfeção, a cronicidade da infeção ou a maior gravidade da infeção tais como: a) diminuição das defesas imunitárias (doenças crónicas graves, doentes transplantadas, doenças autoimunes, diabetes, malnutrição ou distúrbios alimentares graves), b) a medicação crónica com imunossupressores ou corticoides, c) o tabagismo, d) a utilização de determinado tipo de contracetivos hormonais, e) outras infeções sexualmente transmissíveis concomitantes (HIV, herpes tipo II, Clamídea tracomatis, Tricomonas vaginalis, entre outras).

A má notícia é que uma grande percentagem da população feminina, particularmente em idades mais jovens, está exposta à infeção por HPV, sendo que no nosso país esta infeção tem a sua maior incidência entre os 20 e os 24 anos.

A boa notícia é que cerca de 80% destas jovens infetadas com o HPV vão conseguir resolver e curar esta infeção sem necessitarem de tratamento ou, mesmo, sem chegarem a saber que estiveram infetadas.

No entanto, 20% das nossas jovens terão infeções graves, causadas por HPV de alto risco, que têm o potencial de evoluir para lesões pré-malignas e, posteriormente, para cancro do colo do útero. Não deixa de parecer surpreendente que estes casos, por vezes, apresentem citologias “normais”. Um facto que pode ser consequência de uma de 3 situações diferentes ou, mais raramente, a conjunção de 2 ou mais situações:

1º – a citologia não foi adequadamente colhida pelo médico, não tendo sido obtidos os três tipos de células que existem no colo do útero e essa circunstância é motivo de um “falso negativo”; ou seja, embora as células colhidas sejam normais, existem células no colo que não foram retiradas para análise e que têm lesões pré-malignas ou são já malignas. Neste caso, o resultado comunicado na análise é “Negativo para lesão intra-epitelial maligna ou pré-maligna” (NILM) mas a citologia não é satisfatória e não tem representação de algum tipo de células.

2º – o resultado do laboratório não é correto ou é duvidoso e será transmitida à doente uma falsa segurança e um resultado “falso negativo”; esta situação tem muito maior probabilidade de ocorrer quando a citologia foi feita numa lâmina e não em meio líquido, estando descritos cerca de 25% de falsos negativos em citologias efetuadas em lâmina.

Outras circunstâncias podem contribuir para os “falsos negativos” dados pelo laboratório, como a má técnica laboratorial, uma leitura inexata ou incompleta, ou a contaminação do produto com sangue ou micro-organismos.

3º – a última citologia foi realizada há mais de 3 anos; neste caso uma anterior lesão de baixo-grau pode ter evoluído para lesão de alto-grau ou uma lesão de alto-grau para cancro. Embora os estudos mais recentes, efetuados em mulheres saudáveis e sem fatores de risco, apontem para um intervalo de tempo de cerca de 10 a 12 anos, desde a infeção por HPV (mesmo não detetada em exame de rotina) até à transformação em cancro invasivo, múltiplos fatores podem encurtar este intervalo de tempo e, muito frequentemente, assistimos a evoluções muito mais rápidas.

Portanto, uma citologia “normal” pode não ser suficiente para eliminar a possibilidade de lesão do colo com potencial de transformação maligna, assim como o facto de a doente ter sido vacinada contra a infeção por HPV não deve ser suficientemente tranquilizador.

As mulheres necessitam de manter uma vigilância ginecológica regular, que nunca deverá ultrapassar os 3 anos de intervalo e, idealmente, deverá ser efetuada anualmente.

Por outro lado, os próprios clínicos, médicos de família e ginecologistas, devem manter a consciência e responsabilização suficiente e serem críticos face a determinados resultados laboratoriais, efetuarem as citologias de forma correta, assegurarem-se que as mesmas são enviadas ao laboratório da forma adequada, lerem com cuidado os resultados e, acima de tudo, estarem alerta para circunstâncias e situações que indicam a realização de exames adicionais como a colposcopia.

A realização de colposcopia por um médico com experiência nesta área confere um grau de extrema segurança na eliminação da possibilidade de infeção por HPV ou, ao contrário, na sua suspeita mesmo perante citologias “normais”. Além disso, pode conduzir à deteção de determinadas lesões do colo do útero que obrigam à pesquisa e tipificação do HPV permitindo, desta forma, a identificação e tratamento de lesões muito iniciais (lesões de baixo grau) salvaguardando a integridade do colo do útero e o potencial reprodutivo da mulher jovem.

Margarida Figueiredo Dias

(Médica, Ginecologista)

 

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